Emissora Aplicou Regra do Púlpito Vazio em 2026, Mas Escancara Inconsistência em 2018 e 2006
A regra do púlpito vazio gerou escândalo quando a Rede Globo acusou o Judiciário de interferir no debate presidencial de 2026. Contudo, a própria emissora não seguiu esse procedimento em 2018, quando Jair Bolsonaro faltou ao último confronto antes do 1º turno. O então candidato do PSL faltou por recomendação médica após ser esfaqueado, mas o cenário não exibiu um espaço vazio com seu nome.
O que aconteceu no debate de 2018?
A emissora realizou o encontro em 4 de outubro de 2018 com Alvaro Dias, Ciro Gomes, Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Guilherme Boulos, Henrique Meirelles e Marina Silva. Bolsonaro recebeu alta cinco dias antes, mas alegou não poder participar. Enquanto isso, ele concedeu uma entrevista à Record, que exibiram no mesmo horário e alcançou alta audiência.
Sua ausência virou assunto, entretanto, não existiu um púlpito vazio identificado no cenário, nem previsão para perguntas ao ausente. Além disso, as câmeras não destacaram o espaço desocupado.
Segundo turno também ficou sem debate
A diferença ficou evidente no 2º turno. Bolsonaro comunicou que não participaria do confronto com Haddad. Diante disso, a emissora cancelou o debate previsto para 26 de outubro. Dessa forma, eles também decidiram que o espaço não viraria entrevista exclusiva com Haddad. Registros internos mostram que, após a campanha de Bolsonaro informar a ausência, “ficou acordado que o debate não seria substituído por entrevista com o outro candidato”. Pela primeira vez desde a redemocratização, uma eleição presidencial terminou sem debate televisionado entre os dois finalistas.
Precedente de 2018 mostra tratamento diferente
O histórico demonstra que a emissora já tratou ausências de candidatos competitivos de maneira distinta. A criação do mecanismo em 2026 obrigou a juíza Estela Aranha, do TSE, a intervir. Ela não proibiu os candidatos de criticar Lula ou comentar a ausência. Além disso, ela vetou apenas o uso do espaço vazio como elemento visual recorrente e a formulação de perguntas a quem não poderia responder.
“A consequência jurídica da ausência é simplesmente que ele perde a oportunidade de participar daquela rodada”
Globo defendia outra regra em 2026
Para o debate desta quinta-feira (1º), o regulamento estabelecia que o lugar de um candidato ausente permaneceria no cenário com placa de identificação. Na rodada correspondente, o púlpito receberia destaque, o mediador lembraria a ausência e os concorrentes poderiam formular perguntas sem resposta imediata. A ata havia sido assinada pelos partidos.
Prática também mudou quando Lula faltou
A história dos debates mostra que a emissora poupou Bolsonaro após usar o mesmo procedimento contra Lula. Em 2006, quando Lula faltou ao último debate antes do 1º turno, a emissora exibiu repetidamente a cadeira vazia reservada ao presidente. Geraldo Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque exploraram a ausência, mas ninguém fez perguntas para a cadeira do ausente.
Outros canais agiram diferente
Enquanto isso, em agosto de 2018, a RedeTV! preparou um púlpito vazio para Lula, então candidato do PT preso. Após o TSE negar sua participação, a emissora consultou os candidatos e retirou o espaço. Bolsonaro reivindicou publicamente a decisão, porém o mediador Boris Casoy esclareceu que a retirada ocorreu após consulta a todos os participantes.
Conclusão do caso
O histórico revela que cadeiras e púlpitos vazios nunca constituíram uma norma uniforme na televisão brasileira. Foram usados em algumas eleições, dispensados em outras e adaptados conforme cada emissora e circunstância política. A controvérsia de 2026 surge porque a emissora tratou como princípio de autonomia jornalística uma regra que seu próprio histórico mostra não ter sido permanente.